A incorporação no kardecismo e na umbanda

Durante os primeiros vinte anos de minha vida frequentei e trabalhei no kardecismo, especificamente na linha de Ramatis. É prática comum que os centros kardecistas incentivem muito seus médiuns e a assistência a estudar a espiritualidade através de palestras e leituras dos livros de Allan Kardec, Chico Xavier e muitos outros. Por isso e por ter pais que já eram espíritas, fui desde sempre educada em diversos assuntos, ainda que às vezes de forma superficial, como a reencarnação, a vida no plano espiritual, o desencarne, o karma, a mediunidade e tantos outros. Quando me encontrei na umbanda, jornada ainda bem recente, meu instinto foi buscar o conhecimento também nos livros; em nossa religião é fundamental ter a prática, a vivência no terreiro, mas também existem autores e obras muito completas sobre a umbanda que serão ótimos para qualquer médium ou filho de fé. Em breve traremos uma lista de recomendações de leituras e, além dessas, o próprio pentateuco espírita, os cinco livros editados por Kardec, formam uma ótima base para os seguidores da umbanda. É sempre bom lembrarmos que nossa fé foi oficialmente criada durante uma sessão em um centro de mesa branca, com o objetivo principal de levar a palavra do espiritismo aos mais humildes. A manifestação do espírito para a caridade.

Foi justamente em um desses livros de Kardec, porém, que dei de cara com um conflito. Olhando o índice do Livro dos Médiuns, não encontrava nenhum capítulo falando sobre a incorporação, justamente o tópico que eu mais queria estudar! Corria os olhos por todos os itens e não me conformava em não encontrar nada. Desisti do assunto e resolvi reler o livro inteiro, ou pelo menos passar pelas partes que pareciam mais interessantes. 

Eis que no capítulo XIV, item 166, encontrei a seguinte passagem:

  1. Médiuns falantes
  2. Os médiuns audientes, que apenas transmitem o que ouvem, não são, a bem dizer, médiuns falantes. Estes últimos, na maioria das vezes, nada ouvem. Neles, o Espírito atua sobre os órgãos da fala, como atua sobre a mão dos médiuns escreventes. Querendo comunicar-se, o Espírito se serve do órgão que é mais flexível no médium. De um empresta a mão, do outro as cordas vocais e do terceiro os ouvidos. O médium falante geralmente se exprime sem ter consciência do que diz e muitas vezes diz coisas completamente estranhas às suas ideias habituais, aos seus conhecimentos e, até, fora do alcance de sua inteligência. Embora se ache perfeitamente acordado e em estado normal, raramente guarda lembrança do que diz. Em suma, nele, a palavra é um instrumento de que se serve o Espírito, com o qual uma terceira pessoa pode comunicar-se, como pode com o auxílio de um médium audiente. Nem sempre, porém, é tão completa a passividade do médium falante. Alguns há que têm a intuição do que dizem, no momento mesmo em que pronunciam as palavras. […]

A palavraincorporação” não aparece no texto porque nem mesmo existia, mas se lermos com atenção veremos que é esse o tipo de mediunidade descrita neste parágrafo. Não se parece com a manifestação dos guias que vemos na umbanda, que fumam, bebem, usam adereços e possuem personalidade própria, mas vale lembrar que as obras de Kardec foram ditadas na França, no século dezenove! A umbanda nem sonhava em nascer e o principal meio de comunicação com os desencarnados, prática que ainda estava se organizando e tomando forma enquanto recebia chuvas de críticas da Igreja Católica, eram as mesas de psicografia. O chamado “médium falante” se sentava à mesa durante a reunião e emprestava seu corpo para que o espírito falasse sua mensagem, exatamente da mesma maneira que o médium escrevente emprestava sua mão para que um desencarnado escrevesse. Se houvesse um médium vidente, ele descrevia a aparência dos espíritos visitantes que enxergava e, se houvesse um audiente, ele repetia a mensagem que escutava. Sem nada de especial, a incorporação nada mais era que mais um jeito de se comunicar com os mortos: útil, digna de nota e estudo, mas sem nada de especial. Foi documentada da mesma forma que todas essas já citadas e mais várias categorias como a mediunidade de efeitos físicos, sonambulismo, variações da psicografia e várias outras.  Nesse mesmo Livro dos Médiuns, inclusive, é dito que “De todas as formas de comunicação, a escrita manual é a mais simples, a mais cômoda e sobretudo a mais completa. (…) É por ela que os Espíritos revelam melhor a sua natureza (Cap XV, item 178)”. Dá pra ver o quanto o kardecismo gosta da psicografia, não é? Em uma doutrina organizada através da ciência, na europa de três séculos atrás, codificada por um pedagogo, a escrita era realmente a melhor ferramenta; era possível guardar as mensagens para serem estudadas e analisadas depois, comparadas com outras e, claro, incluídas nos livros e na Revista Espírita. 

A incorporação como conhecemos hoje, em nosso país, nossa religião, nosso contexto, surgiu ao mesmo tempo que o sincretismo misturou ritos indígenas, orixás e santos. Quando aparece uma necessidade e uma possibilidade de fazer o bem,  espiritualidade age e se adapta. Hoje, no Brasil do século vinte e um, se nosso objetivo é trabalhar para a caridade e levar alento, sabedoria, cura e consolo aos encarnados, a incorporação de uma vovó ex-escrava, curvada e cansada, sentada em um banquinho de madeira, usando um  paninho na cabeça e segurando um raminho de arruda será a melhor ferramenta que um filho de fé em sofrimento poderá precisar.

por

Talita Emrich é médium da Casa de Caridade Portal de Aruanda, terapeuta de nível III do Reiki e estudante de Literatura. Atualmente escreve os artigos sobre a espiritualidade aqui no Pontos de Umbanda.




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