Pontos cantados, pontos vibrados

Qualquer um que frequente a umbanda conhece a importância dos nossos pontos cantados. São usados em todo terreiro, seja com ou sem tambor, acompanhados ou não de palmas. Cada um tem sua função conhecida; abrir a gira, bater a cabeça, homenagear os orixás, chamar cada linha de entidades, convidá-los a subir e encerrar os trabalhos. Todos aprendemos os pontos na prática, ouvindo-os no terreiro ou através de canais como o Pontos de Umbanda, mas sabemos realmente para que eles servem? Por que na umbanda a música foi a forma escolhida para conduzir e manter os trabalhos da gira?

Antes de falar sobre pontos cantados, precisamos falar sobre o que eles são em sua forma mais simples: música. E antes de falar do papel da música, teremos uma pequena introdução sobre a força do nosso pensamento.

 

Em muitas obras*, espíritos de luz nos falam sobre como o pensamento tem poder e como se encaixa em diversas faixas vibratórias. É assim que os desencarnados controlam praticamente tudo no mundo espiritual: a partir das vibrações do pensamento. No plano astral, onde não existe a densidade da matéria, os espíritos têm muito mais liberdade para trabalhar com o próprio pensamento e com as faixas vibratórias. Eles se comunicam  através do pensamento, à distância e até usando idiomas diferentes porque para isso só precisam pensar, e o interlocutor captará a mensagem. Viajam para diferentes locais no plano astral e nos visitam na Terra apenas pensando no lugar para onde desejam ir. Plasmam construções, jardins, hospitais, livros e demais objetos nas colônias usando a força do próprio pensamento e frequentemente podem alterar a própria aparência manipulando seu perispírito com o pensamento.

Se podem fazer tudo isso, é lógico que usam essa habilidade para nos ajudar. Através do pensamento, nossos guias nos sopram intuições, plasmam tudo que precisamos na água fluidificada que bebemos, jorram luz sobre nossas cabeças e aplicam medicamentos sobre as feridas dos encarnados. O que não sabemos é que nós, aqui no plano terreno, também podemos fazer tudo isso! Não só podemos, como o fazemos o tempo inteiro sem nem mesmo perceber.

Cada pensamento que temos, cada palavra que sai de nossa boca, tudo aquilo que lemos, assistimos ou ouvimos emite esses mesmos padrões de pensamento de acordo com a faixa vibratória da atividade em questão. Abraçar um filho com certeza não emite a mesma onda de pensamento que gritar com ele durante uma bronca, por exemplo. Assistir o filme Nosso Lar não é a mesma coisa que ver um filme de terror e ler uma revista de fofocas não nos beneficia tanto quanto uma leitura construtiva. Quando queremos o bem de alguém e oramos por essa pessoa ela com certeza é beneficiada, assim como será prejudicada se desejarmos o seu mal. Somos poderosos e, quanto mais soubermos sobre isso, mais responsabilidade teremos sobre essas ações. Cristo nos disse: “orai e vigiai atos, pensamentos e palavras”. 

E o que todas essas coisas tem a ver com a música? Tudo! A música é um meio de expressão dos nossos pensamentos e sempre foi usada pelas mais diversas religiões não só como um meio de falar sobre a própria fé, mas também como conforto e alento para quem as ouve e canta junto. O canto é terapêutico! Um dos primeiros instrumentos musicais criados pelo homem foi o tambor, e evidências arqueológicas apontam que ele já era usado, possivelmente, em rituais, inspirando os homens pré-históricos a seguir na caça e na garantia por sua sobrevivência. Em muitas igrejas católicas ainda é possível encontrar um órgão, aquela espécie de piano que solta sons graves que acompanham os cânticos das missas. As igrejas evangélicas espalham luz através de seus louvores, que inspiram quem quer que os ouça independente da religião. 

Com a umbanda não poderia ser diferente. Tomamos por empréstimo os atabaques do candomblé, que havia séculos já tocavam para os orixás antigas cantigas da língua yorubá e de muitas outras. Nossas músicas são em português, mas evocam a vibração dos mesmos orixás e nos inspiram a sintonizar-mos na vibração de cada um deles. Também nos ligam aos nossos guias e ajudam os médiuns a concentrarem-se para permitir a incorporação deles, apesar de sabermos que para isso não é absolutamente necessário o toque. Na umbanda nós rezamos cantando!

O tambor não fica de fora. A mediunidade de um ogã é algo muito particular, porque é dele a responsabilidade de tocar e cantar os pontos com dedicação suficiente para manter a vibração da gira em uma faixa condizente com a espiritualidade de luz. Toda a corrente mediúnica e a assistência ajudam com o canto, mas é do ogã a missão de entoar os mantras da umbanda sagrada. Não é à toa que várias entidades saúdam os ogãs e os atabaques ao descerem, não é à toa que cada tambor tem sua vela e seu copo dágua. Já presenciei uma vez uma cigana dizer a um certo ogã: “Cada vez que sua mão bate no couro, dali sai uma faixa de luz”.

Mas e no plano astral, como é que fica esse festival de pensamentos cantados voando pelo terreiro? O que os mentores vêem quando estão do lado de lá? 

Frequentei em outros tempos uma casa kardecista que seguia os ensinamentos de Ramatis. Lá havia o trabalho chamado de cromoterapia e, na primeira vez que fui participar desse tratamento, imaginava que veria umas luzinhas coloridas piscando sobre os pacientes. Em vez disso, o que acontecia era o seguinte: toda a assistência se sentava, músicas pré-selecionadas eram colocadas para tocar e as letras eram projetadas no telão. Saí de lá me sentindo muito confusa. O que aquela cantoria tinha a ver com a cromoterapia, a terapia através das cores? Perguntei à pessoa responsável pelo trabalho e foi essa a resposta que recebi na época:

“Cada nota musical é representada por uma cor e atua em um determinado chakra. O que nossos médiuns videntes relatam é que, quando cantamos, essas cores saem das nossas bocas e sobem flutuando até o alto do salão. Ali os mentores responsáveis as organizam e selecionam e, ao fim do trabalho, na prece final, fazem chover essas cores na forma de pétalas de flores sobre cada um de nós conforme a necessidade. Às vezes selecionamos, sob orientação deles, músicas que ajudarão no tratamento da tristeza, de problemas de saúde, de agressividade ou outras necessidades.”

Adaptando para a estrutura de uma gira de umbanda, podemos calcular que essas cores são usadas imediatamente, enquanto cantamos. Quando cantamos para Omulu e para os caboclos durante um trabalho de cura, por exemplo, podemos imaginar que as cores correspondentes voam para quem está recebendo o tratamento. Durante um trabalho de descarrego ou de desmanche de demandas, nossos guardiões podem aproveitar o que plasmamos com o canto para proteger e blindar energeticamente quem está precisando de ajuda, desmanchar as energias densas e muito mais; são magos profundamente sábios.

Qualquer que seja a visão no plano astral, podemos ter uma certeza; é lindo de se ver. O maior presente e a maior gratidão que podemos demonstrar a eles é, sem dúvida, cantar com gosto e bater nossas palmas para “enfeitar” a festa deles. Se fazem tanto por nós, não nos custa fazer algo por eles.

 

*Sugestões de leitura sobre a força do pensamento, faixas vibratórias e formas-pensamento:

-Meios de Iluminação, de André Sant’ana: http://candeia.com/sub/amostra/aveluz-meiosdeiluminacao.pdf

-A Vida no Planeta Marte, de Ramatis: http://www.usetupa.com.br/Livros/L-A_vida_no_planeta_marte.pdf

-Formas pensamento, de C.W Leadbeater e Annie Besant: http://icemeb.com/aforismos/formas_pensamento.pdf

-Violetas na Janela, de Vera Lúcia Marinzeck: http://www.feluzecaridade.net/download/Violetas_na_Janela.pdf
-Mensagens do Grande Coração, de vários espíritos: http://bvespirita.com/Mensagens%20do%20Grande%20Coracao%20(psicografia%20America%20Paoliello%20Marques%20e%20Wanda%20Baptista%20Pereira%20Jimenez%20-%20espiritos%20diversos).pdf

 

por

Talita Emrich é médium da Casa de Caridade Portal de Aruanda, terapeuta de nível III do Reiki e estudante de Literatura. Atualmente escreve os artigos sobre a espiritualidade aqui no Pontos de Umbanda.




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